segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Silêncio!

Eu bebo cada minuto de silêncio
Num compendio único e inigualável.
Não só por mim,
Mas também por todos aqueles
Que não precisam falar para se expressar.
Por isso bebem.

E não por que prezo o silêncio
(embora o preze)
Mas por que é no silencio
Que me escuto
E me escutando
É que percebo quem sou.

Eu bebo a cada minuto de silêncio
Pelas almas daqueles que falam demais,
Pelo desejo ardente
Daqueles que não sabem o que dizer.
Bebo para esquecer.
Esquecer tudo aquilo eu disse,
Tudo aquilo que faltou dizer
E todo o resto que a convenção
Não me deixou falar.

Bebo a cada minuto de silêncio
Por que cada minuto bebido em silêncio
É horas de embriagues não dita.
A vida não dita suas regras.
Sou eu o ditado para a vida.

sábado, 18 de julho de 2009

Descrição "bucólica" da real realidade poética da minha realidade mundana no sábado 18 de julho de 2009 as 19h14min.

A mesa tem 45 centimetros de comprimento por 30 centimetros de largura.
Ocupando metade desta o lap top de tela aberta e letras surgindo.
Á esquerda, como quem se opõe para participar,
Três quartos de uma barra de chocolate,
um cinzeiro com sotaque pernambucano,
uma cartela de ingressos para o parque de diversões,
uma latinha "Fisherman's Friend" com bússula e canivete,
o controle mudo do aparelho de DVD,
um Pen Drive "Super USB" e
um copinho de martelinho com bafo de Jack Daniel's.
No rádio Chico Buarque e sua inútil dificuldade de dizer o que foi bonito e seu inútil canto do que se perdeu.
Em mim?
Ora, esta imensa saudade do que não sou...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

irritação

a noite se atirou sobre o predio. atirei sobre mim o edredon. cruzei os punhos abaixo do queixo e me encolhi de frio esperando o sono. mera ilusão. de repente trovões. o vento balança a cortina, que bate no cabideiro, que balança o casaco, que faz barulho, que me irrita. a gata, femea, não sabe o tamanho exato do universo e entra no cio 2 vezes por mes. de repente começa a miar, agitar-se pelo quarto, esfregar-se nas paredes. clama pelo sexo alheio fazendo barulho que me irrita. o vento, insatisfeito em fazer barulho no cabideiro, entra pela sala, atravessa a cozinha e vem empurrar a porta do meu quarto, que balança, sacode a chave, rebate a parede, finje que tranca mas não tranca e irriquieta produz um barulho que me irrita. o que era frio borbulha pelo corpo num calor irritante. voa o edredon chão acima. a gata corre pra debaixo da cama. chuto o ar como centro-avante. respiro fundo. relaxo. são 00:15. tenho que acordar as 6h. o dia vai ser longo. respiro fundo. mentalizo o mar. o vento sossega. silencio. paz. faço as pazes com o edredon que volta a me abraçar. encolho as pernas afetivamente e espero o sono. que sonho. a gata, femea, não sabe do perigo da morte e resolve comer. a ração quebra-se entre seus dentes produzindo na imensidão do silencio da noite um estrondo de trovão. repete descompasada a trovoada. o vento ouve o chamado e traz a chuva que balança a cortina, que empurra a porta, que faz barulho, que me irrita. o edredon voa novamente. pulo num levanto e procuro a extensão exata do quarto em coices ao leu. abro a janela, encaro a noite, faço cara feia para o vento e procuro um palavrão bem cabeludo e extenso: "pêloreverbofagiacapilar!!!!". blasfemo. procuro culpados. a gata não respira. o vento não pia. a porta não ousa. quem mandou, justo hoje, beber refrigerante antes de dormir? duas latas. odeio a coca cola! são 01h05. tenho que acordar as 6h. vai ser um dia longo. deito. respiro. preciso me acalmar. converso manso com o edredon que volta para a cama. chamo a gata. deito-a comigo e aliso o pêlo, calmo e delicadamente. respiro pro fundo. mentalizo um campo, verde, florido, com arvores de belas copas ao longo. os pés descalços. a umidade da grama. a brisa leve que me balança os cabelos. sorrio agradavel e afundo-me no travesseiro recebendo o sono.
são 2h16. a gata mia, o vento balança, o edredon não voltou mais pra cima, a porta dança, tudo isso me irrita. e eu tenho que acordar as 6h. vai ser um dia muito longo.

terça-feira, 30 de junho de 2009

O mundo dá voltas. Ah, voltas...

Amanda, enfim, postou-se ante o computador e com a tela aberta em característico branco de susto, fitou-se com ar de admiração e saudade. Tempos decorrido em silencio e palavras perdidas ao vento. Queria e precisava escrever. Mas, como de praxe, não sabia o que. Sabia o que sentia e que este aperto no peito era evidencia de poesia e dor. Levantou-se para uma dose. Jack deve entendê-la. Nos dedos o cigarro aceso. A música repetia-se como uma lagrima que não desprende dos olhos. Assim, a raiva é lamento; a decepção é inquestionável; a saudade é inevitável. Dor.

O que esperar do amor? O que esperar de duas almas que por um motivo desconhecido pela razão se unem e resolvem que o caminho deve ser trilhado a dois? O que esperar quando o que atinge a motivação de um ser é o sorriso de outro ser?

“Decidi que não te escrevia nada,
Que deixaria a noite antepor-se a aurora
E que com os raios quentes de um novo dia
Pudessem as coisas falarem por si.
Mas assim como é inevitável chorar de saudade
É inevitável que estas linhas surjam ásperas e doloridas.
Tua negação ao meu pedido primeiro
É como uma planta de folhas largas
Perdida no deserto
Rodeada de pequenas pedras.*
Ver tua boca desferir-me argumentos de educação
É como ver a primavera pedir licença
À flor antes de desabrochá-la.
É como ver surgir no horizonte poente
Um tímido risco rubro,
Que não pinta a vista do poeta
Por medo que não seja esta a vontade
Do fim da tarde.
Quando me dizes não por desconfiares de minha vontade
É como ver repetir a manhã,
Que não se ergue em dia,
Por receio e educação.
É como ver o barco imóvel
Por que a correnteza não quer levá-lo
Ao grande mar
Temerosa pela atitude a ser feita.
Quando assim o fazes
Negas o que plantamos
Com cuidado e aninho nos nossos destinos.
Se não era a vontade da terra
Ver a macieira oferecer a maçã,
Por que então deixou-se envolver na semente?
Tenho medo do orgulho demasiado.
Tenho medo da euforia demasiada.
Tu podes culpar a uva.
Mas eu culpo á ti.”

Sorveu assim o ultimo gole, fechou a tela do computador em preto luto e pôs-se á dormir só...

*citação á Bernard Marie Koltés – “Tabataba”

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O que é, é?

O melhor de viajar é não estar no lugar cotidiano. Ter ainda um horizonte a frente, mas não o mesmo. Ter um ainda um ar que o respira, mas não o mesmo ar, que por vezes, o sufoca, dado o cotidiano. É um acordar sempre a mesma hora, ás nove antes do meridiano, mas não para estar atrasado. É almoçar a mesma coxa de galinha. Mas não ao molho, desta vez frita. É ver o mesmo ato de encenar em teatro, mas desta vez, não com os mesmos atores já manjados, Lisboetas ou Parnanguaras, e não ter como publico parentes e goteiras desarranjadas. O bom de viajar é ver que, mesmo incredulamente, existe ainda mais para se ver.
O ruim de viajar é a volta. É quando tudo acaba. É quando abre-se a mesma porta de sempre, sob a mesma estação de sempre, ante a mesma mesmice de sempre. É perceber que nada muda por mais que se perdure a busca da mudança e que o máximo que se tem de modernidade é a edição nova dos sonhos alcoólicos de mesa de bar.
Daí o que fica é este olhar baixo, este pensar distante, este calar-se continuo, este deixar-se de lado para lembrar. Esta vontade de voltar e viver de viajem, por que a viajem não traz o cotidiano. Por que o cotidiano é o medo do desconhecido e viajar é ter o desconhecido pela mão como companhia.
Eis que, nestas noites cotidianas, fica esta pergunta: Mas e daí? Agora o que resta é debruçar-se sobre as teclas e lacrimejar nelas as horas antes da próxima viajem? É aninhar-se nas lãs das criticas inconformadas e nelas dormir o sono dos acomodados?
Sinceramente, eu sinto falta de uma São Leopoldo que não sei se um dia existiu. Uma São Leopoldo, berço de meu cotidiano, capaz de surpreender os olhos dos que lêem e os ouvidos dos que ouvem. Uma São Leopoldo capaz de fazer suprir esta necessidade do novo, do inexplorável, do que ainda há porvir.
Pessoalmente (e é a nas minhas vivencias pessoais que se baseia este blog e este texto), conheço uma porção de escritores, poetas, cronistas, músicos, artistas, atores, dançarinos que não fazem nada mais do que apenas sobreviver á uma corriqueira arte que não surpreende nem transcende. Nada mais do que mentes que iluminam apenas o necessário. Nada mais do que (pseudos) intelectuais que não fazem mais do que o necessário para serem o que são. De uma administração política, que governa a cidade, apenas com o trivial e o básico. Justifico esta última linha salientando que o governo anterior nada fez, portanto, o pouco que se faz agora já é muito. Mas este muito ainda é pouco, sabendo-se que ainda prevalecem as politicagens de sacanagem que nos acompanham desde o Império.
Após este ponto reacende-me a pergunta: Mas e daí? O que posso eu falar se ainda sou este mesmo de sempre, submerso em minhas esperanças, em minhas frustrações, que nunca passou de um Manifesto do Teatro Futurista e de um BAND AID na camisa? Como posso eu fazer qualquer critica se não passo de mais um alvo de minha própria critica?
Para quem abre um sorriso malicioso, repondo: não sei. Talvez...
O que sei é que ainda escrevo e escrevendo pergunto, desabafo, perturbo.
Quero e espero uma mudança, como espera a chuva o cactos do deserto.
Até lá bebo, fumo e viajo.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Amanda vai viajar...

Amanda retirou os fones de ouvido da mochila, colocou-os em tiara sobre os cabelos, respirou fundo, segurou o MP3 com a mão esquerda e pressionando o dedo polegar sobre o “Play” pôs-se a caminhar. Saía de casa, do quarto, da tela do computador, para distribuir pela cidade um pouco de seus pensamentos. A musica como companhia inspirava-a.
Trilhava oculta sob as sombras dos casarios antigos iluminados pela luz perola da lua e deixava-se revelar quando banhava-se da mesma luz. Nas caminhadas noturnos os olhos não precisam dirigir-se a frente, além dos pés. Podem fixar-se junto dos mesmos. E ambos andam lentos, calmos, sem a pressa diurna ou a necessidade objetiva dos otimistas. Caminhar a esmo, ao sabor do vento, é embalar-se ao som das harpas angelicais. Anjos. Amanda precisa caminhar. Amanda precisa pensar...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Não sei...

Não sei.
As vezes fico assim,
olhos vidrados no branco
mente perdida no passado,
uma vontade de correr para teus braços
de beijar a tua boca
de morrer de amores no teu sexo.
Vontade de recomeçar,
esquecer, mudar,
transformar a poesia
em recado,
em bilhete de não esqueça o mercado.

Olhares noturnos,
remelas diurnas,
halito madrigal,
gordura vegetal.
Café sem açucar,
cabelo na boca,
brigas embreagadas,
sexo nas escadas.

Não sei.

Pode ser que seja alcool, THC, nostalgia,
nicotina ou pura sem vergonhice.
Não sei.
Mas as vezes fico assim...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Cronica da Casa Assassinada - II

A Calopsita era para ele o que ele era para si próprio. Chamava-a de Alma. Era de uma cor radiante, num amarelo ouro envolto de uma leve borda marrom em cada pena. E cantava, ah!, como cantava. Iluminava a manhã num agudo aurora, em notas de Estrada do Sol, do Tom. Detalhe: solo no piano.
Moravam apenas o dois num apartamento de dois quartos, um para cada, e era felizes numa simplicidade única, coisa de pares singulares. Ela o acordava e ele a punha para dormir. Nunca iam pra cama, uma para cada, sem ele ler Vinicius de Moraes e Mario Quintana para ela. Então, antes do ultimo verso, ela suspirava e adormecia sobre suas penas, num sonho profundo. “... dorme, como dormirás um dia, na minha poesia, um sono sem fim.”Eram companhias completas. Conheciam-se de profundas indagações sobre amor, futuro e boemia, em noites regadas a vinho, só para ele, e muita, muita Bossa Nova. Um consolava o outro nos piores dilemas, nas mais profundas especulações sobre casamentos, um para cada, filhos e “o que eu me tornei?”. Separavam-se apenas quando ele saia para trabalhar como carteiro. Mas no mp3, que lhe serve em trilha sonora para o dia, tocava apenas a saudade “... não há tempo mais vazio do que longe do meu bem.”Mas acontece que um dia o dia amanheceu em silêncio.
Ele acordou de susto e correu para o quarto dela. Vazio. Levou as mãos á cabeça num gesto de desespero e passou a procurar pela casa. Banheiro, cozinha, quarto, Alma!, sala, guarda roupa, Alma! Alma!. Parou de joelho no meio da sala, aos prantos, entregue ao choro compulsivo da perda.
Naquele dia não foi trabalhar. Não abriu a janela, não saiu de casa, não parou de beber, não desligou o aparelho de som. “Tem pena de mim. Houve só meus ais. Eu não posso mais. Tem pena de mim.”.Os dias nunca mais foram os mesmos. Entregava cartas de dia e saia para beber a noite, num gesto inconsciente de busca por sua alma. Nos dias de folga, zanzava pelas ruas com os olhos buscando o nada, o vazio, um horizonte.

Era sábado de manhã. Uma manhã cinza, sem cor, querendo nublar. Ele percorria o centro da cidade de cabeça baixa, cigarro esfumaçando entre os dedos, passos perdidos. De repente, rasgando o cinza chumbo dos céus, um raio quente de sol veio aquecer-lhe a face. Foi quando ouviu em assovio: “...é de manhã...” . Petrificou. Era ela. A Estrada do Sol. Era ela. A Alma. Abriu um sorriso e saiu á procura do assobio. Vinha de uma agropecuária. Emocionado na busca pelo som, grudou os olhos numa parede repleta de gaiolas com as mais diversas espécies e cores de aves. Não teve dúvidas e apontou o dedo para a gaiola certa gritando: Alma!
Ajoelhou ante a gaiola e, eufórico, cantava a musica do assobio. As mãos abraçavam a gaiola. O dono do recinto, espantado com tal atitude, aproximou-se oferecendo ajuda.
De repente sentiu por dentro uma raiva, um desespero dos dias de solidão e angustia. Dias em que preferia a morte. E agora encontra sua Alma presa como um produto á venda dentro de uma gaiola. Explodiu verbalmente sobre o senhor:
- Pois quem precisará de ajuda é o senhor, que aceita mercadoria roubada em seu recinto. Que espécie de espelunca é essa que faz parte de um crime organizado, contrabandeando animais silvestres? Que espécie de ser humano é o senhor que contribui para o desespero alheio? Pois saiba que eu encontrei com a dor, eu provei o sabor salgado da lagrima, eu furei meus olhos nos copos com gelo porque gente como o senhor roubou o que mais me era meu. O senhor roubou minha Alma. Pareceu-lhe justo pensar em seus lucros contínuos e exorbitantes antes de pensar no que realmente há para se importar na vida. Vendo tal atitude, fica explicito o por que do definhamento da espécie humana, consumindo seus umbigos como hienas eufóricas e famintas. Lambuzando-se com o próprio sangue na estúpida sensação de ser sangue alheio. É deprimente o seu espírito putrefato.
- Senhor, o que é isto?
- Isto, meu caro senhor, é um acerto de contas com sua consciência. Exijo que o senhor devolva minha Calopsita e responda pelos seus atos sujos e mesquinhos. E que disponha-se a encarar-se de frente a cada manhã na frente do espelho, antes mesmo de lavar esta cara imunda e vestir-se de uma mascara cruel e impessoal.
- Meu senhor, deve haver um engano...
- Engano é o que o senhor faz com sua própria vida, ou melhor, com sua própria morte. Achas que serás assim imponente quando estiveres caminhando sobre a ponte pênsil que divide o inferno do céu? Ou achas que o peso de tua consciência não vai desequilibrá-lo? Se pensas que serás como todos os outros, pense que ...
- Meu senhor, há um engano. Isto não é uma Calopsita. É uma Caturrita.
Ele estalou os olhos para o senhor da loja. Ficaram em silêncio por instantes que permearam nas leis de Einstein por anos. Baixou a cabeça e virou-se em silêncio para perder-se porta afora.
Passou a escutar Papas da Língua, fez do quarto vago uma sala de ginástica e agora tem um peixinho dourado num aquário no canto esquerdo da sala.

domingo, 10 de maio de 2009

Carta à Julieta

domingo, 10 de maio de 2009

querida julieta,
escrevo-lhe para dizer que mudei.
parti de onde estava e ocupo agora um novo lugar em mim.
se já não sei para onde quero ir com certeza, pelo menos tenho a certeza de onde não quero mais estar.
as coisas que surgem no ar após uma ventania por vezes pousam novamente de onde partiram, por vezes pairam ainda perdidas a procura de um novo pouso. era assim que me achava, pairando sobre minha rotina sem saber quais eram as horas do dia, quais eram as lagrimas da noite. não era eventual confundir lagrimas com estrelas ou insonia com poesia. perambular pela cidade vazia pode ser inspirador. tão inspirador quanto perder-se de olhos vendados na beira de um abismo rochoso. acalentar-se no ébrio das companhias de copos erguidos pode ser confortavel. tão confortavel quanto aninhar-se numa jangada perdida em alto mar.
antes que te indagues e me pergunte, devo advertir-te que não tenho todas as respostas e que tão pouco faço questão de ser exemplo para alguem ou para alguma nova cronica. apenas procuro desfazer-me do ócio que vem me acompanhando tem algum tempo. eu que sempre fui sonhadora, ando pensando sériamente em voltar a domir. é que quando se dorme, se dá a oportunidade de despertar. e creio que despertar seja um bom motivo para ver as coisas acontecerem. estou cansada de ficar cerrada em mim.
é por isso que lhe escrevo. para lhe dizer que mudei.
e tambem para cumprimentar-lhe e dizer que após tanto tempo muda, muito me agrada confidenciar-te estas linhas.
espero que estejas bem.
e beba aquele bom vinho na beira do Senna por nós.

com amor e carinho

Amanda

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Conversas

-Só com você não dá certo. Porque?
-Porque o amor é tão estranho quanto amar um estranho.
-É. O amor tem dessas. Você passou o dia bem?
-Bem. Descansei no sol e trabalhei na lua.
-Estas animado?
-Como um gato em cima do muro na lua cheia.
(silêncio)
-Que mais você fez hoje?
-Nada mais. Apenas sonhei a vida que queria ter quando dormisse.
-Espera aí.
-Ta! Eu desisto!
-Eu não! Ah, que droga...
(off line)

terça-feira, 14 de abril de 2009

domingo, 12 de abril de 2009

As noites de Amanda

Amanda não gosta de dormir.
mas esta noite o quer fazer.
e como quem vai deitar
em um berço póstumo,
deixa seu último alento:

“Estou em dor.
me sinto desamparada,
abandonada,
sozinha.
a lua é minha única
companhia.
e ela chora comigo.
no meu peito
um aperto sem fim.
uma angustia
que segura a respiração,
que desconstrói o tempo,
que remexe a estrutura da poesia.
e dela,
como sangue
que escorre do espinho,
homenageia a tolice do amor.
novos rumos esperam.
mas me sinto sem rumo.
a aurora é inevitável.
amanhecer um martírio.
o dia inteiro para viver
este cigarro que não cessa,
este sorrir que não ilumina,
esta água que inebria.
até a lua
parece estar
cheia de mim.
conto uma estrela por lagrima.
a noite esta estrelada.
os olhos caem em desespero.
confundem desconsolo e sono.
desesperadamente preciso dormir...”

E sob a luz apagada do abajur,
Amanda desfalece no seu sono.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Vamos brincar...

Vamos brincar
de melodias perdidas,
notas intrínsecas,
rimas malditas,
poesias sem rima,
musicas abatidas.

Vamos brincar
de poesias anarquistas,
musicas sem vida,
notas retorcidas,
rimas escapulidas,
melodias esquecidas.

Vamos brincar
de musicas partidas,
rimas escondidas,
notas esculpidas,
melodias ridiculas,
poesias manuscritas.

Vamos brincar...

quinta-feira, 2 de abril de 2009

por que a gente é assim?

eu não gosto de dormir.
a noite inteira para sofrer
e tanta gente preferindo dormir.
acho que dormir
é um desperdiço de sofrimento.
tanta estrela no céu
brilhando como lagrima
e tem gente sonhando
um sonho vão que acaba,
um sonho vão que se dissolve
na fronha com baba.
eu não.
prefiro ficar aqui,
com meu texto e minha dose.
com minha dor e minha tosse.
decifrando a esfinge
que há em mim.
deforando-me a cada enigma,
a cada poesia que me intriga.
eu sei,
eu sou assim.
as vezes o avesso de mim mesmo,
a retorica de meu proprio texto.
mas fazer o que?
se é para ser,
que eu seja assim mesmo,
ideal de mim,
resultado da soma
das duas pontas
de um mesmo fim.
um brinde noturno ao amor.
e para toda a dor
que há no amor.
e só assim
que eu sei ser (in)feliz.
não sei se eu consigo
ser de outro jeito...

domingo, 29 de março de 2009

Os Insetos Interiores

a futilidade encarrega-se de maestra-los.
São inóspitos.
Nocivos.
Poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia
o veneno se refugia no espelho do armário - lembrou um deles.
o ninho deve estar infectado! – lembrou outro.
Antes do sono: o beijo de boa noite.
Antes da insônia: a benção.
Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa: a família.
São soníferos...
Chagas sem curas.
Não reproduzem. são inférteis, infiéis, infertebrados.
Arrancam as cabeças de suas fêmeas.
cortam os troncos
Urinam nos rios
E na soma dos desagravos, greves e desapegos,
esquecem-se de si.
Pontuam-se.
A cria que se crie!
A dona que se dane!

Os insetos interiores proliferam-se assim... na morte e na merda.

Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estomago
a sensação de... ? O que é mesmo que se passa?
Um certo estado de humilhação conformado parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada que romper
com as correntes de preguiça e mal dizer
Silenciam-se no holocausto da subserviência,
O organismo não se anima mais.

E assim, animais ou menos assim...
Descompromissados com o próprio rumo,
desprovidos de caráter e coragem
desatentos ao próprio tesouro...
Caem.

Desacordam todos os dias
não mensuram suas perdas e imposturas!
Não almejam.
Não alma.

Já não mais amor.

Assim são:
Os insetos interiores


Fernando Anitelli
O Teatro Mágico

sábado, 21 de março de 2009

zero e trinta e dois

Desde que o outono começou tenho os olhos perdidos, vidrados, no vazio que deixam as folhas que caem. Como que procurado a mim mesmo, questiono-me sobre o vazio que há em minha vida. E as folhas, Mario, ainda caem. Melancolicamente caem.
Fico sentado no parapeito da janela, de frente pra noite, vendo os apartamentos á frente e suas sacadas viradas para o oeste e me perguntando “por quê”? Não que eu sempre tenha uma pergunta armada, pronta para acertar uma pequena depressão. Mas acontece que as respostas que antes aqui estavam derreteram-se com o gelo das ultimas doses. E não que eu queira ter certeza de tudo, mas que está cada vez mais difícil entender, isso está! É como tentar explicar a cor azul do céu em dias nublados. Não é apenas a falta que você me faz, embora sentir tua falta seja a sede que minha poesia bebe entre os cálices e as doses que me amparam. Acontece que há também esta inútil necessidade de sentir-se útil.
Queria por um instante, um instante do tempo relativo de Einstein, sumir de mim mesmo e deixar-me esquecer de tudo aquilo que sou ou que fui e recomeçar. Como o polén que faz nascer uma nova flor, após desprender-se do bico do beija-flor. Eu me acomodaria, em silêncio, nos teus braços e deixaria que a tarde passasse com a pressa dos goles que se bebem na ultima cerveja que se serve. Não protestaria ante as resoluções cômodas e insensíveis de uma sociedade que não enxerga mais além de que seu próprio passo individual (como se não caminhássemos todos para o mesmo eterno morrer coletivo da vida carnal). Tornaria as coisas mais simples antes mesmo de compreender o que é a simplicidade das coisas. Não haveria regra, ideologia ou poesia de solidão de sábados a noite, por que, nestas noites, eu estaria nas sacadas dos edifícios que apontam para o oeste fumando meu cigarro, enquanto nosso anjo Gabriel já sonha no mundo dos sonhos infantis. Depois, o beijo tenro teu e a luz que se apaga. Por que nosso pecado é só nosso...
Eu sei! Romântico demais.
Mas acontece. É outono e no outono todos os caminhos são amarelos e todos os poemas são românticos e melancólicos.
Assim como as folhas que caem, Mario.
Assim como esta dor que nunca passa...

quarta-feira, 18 de março de 2009

Paramaral

Ah, meu amor,
Você é meu sonho distante
E minha insonia presente.
Meus olhos brilham pela
Lembrança que é tua
E meu sorriso sorri
Pela presença que vem de ti.
Nada mais,
Senão,
Saudade.
Para cada noite de embriagues
uma nova poesia.
Não mude,
Apenas se incomode.
És os versos madrigais
Sobre minha saudade diurna...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Olhos nos Olhos

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mas nem porque
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz


Chico Buarque/1976

domingo, 15 de março de 2009

Domingo

O dia nasceu pelas horas da aurora, ao toque suave e alegre do sol quente que
brilhava. Embora eu não estivesse acordado para ver de fato, podia sentir pela felicidade que entrava pela janela e iluminava meus sonhos. Já na tarde, acordado, pude ver o céu esmiuçar e, chumbo, despencar em tristeza sobre o poeta.
De repente, não mais que de repente.

E pensar sobre a vida, agora, é uma poesia triste, um soneto despedaçado. Cinzas de cigarro atiradas sob os dedos que desabafam angustiados. Não faz mais nenhum sentido as coisas terem algum sentido. O coração não quer deixar o corpo descansar e o corpo quer provar ao coração que não há mais nada a fazer, além de atirar-se nos braços da melancolia e ter a solidão como única companhia. Os olhos se recusam a brilhar.

Vontade de ficar assim, só, perdido no escuro dentro de mim.

sábado, 14 de março de 2009

Adeus

Ja era...
Esqueça-me que sou apenas mais um...
Trago-te o gozo momentaneo pois é tudo o que pedes...
Não sou mais teu amor...
Vou ser o sofrimento de minha poesia e nada mais....
Sou apenas outro que morre pelo teu amor vazio...
Apenas mais um...
E de morrer tanto e sempre
É que aprendi que não fazes questão de minha morte nem minha vida...
Queres tua ideologia e para ela te entrego...
Sejas feliz que também serei...
Se me procurares te negarei, não insista...
Se não me queres tb não te quero...
Se não sabes amar eu não vou mais te ensinar...
Adeus...
Perdes-tes quem mais te amava por um devaneio teu...
Espero que sejas feliz ao modo que puderes,
Mas não sera ao lado meu...
Adeus...

segunda-feira, 9 de março de 2009

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.







Vinicius de Moares - Nova York, 1950

sábado, 7 de março de 2009

"Há um homem sofrendo de saudade, porque hoje é sabado."

se tem uma coisa que eu gostaria de ter muito, é afinação de bossa nova para cantar e tocar piano tal qual tom jobim. simples assim. se me perguntassem era isso que eu diria. Voz e piano de tom jobim. ou voz de joão gilberto e piano de tom jobim. ser musical. usar da expressão melódica para responder aos sentimentos mais sublimes, como a dor e o amor. talvez por que a musica é para mim o mesmo que o vento é para as asas do passaro. fundamental ao passo diário é a trilha sonora. e convenhamos, a sociedade contribuiu e muito para disseminação de aparelhos de mp 3, 4, 9, 12... seja lá em que numero isto esteja. A poluição sonora das ruas do centro de São Leopoldo, por exemplo, desmotivam qualquer possibilidade de se caminhar percebendo a sonoridade natural do dia. Me nego.
e depois, por que certas musicas dizem aquilo tudo que era pra ser dito, mas que vc não conseguia escrever ou expressar. A musica.
e ligia, do Tom e do Chico, hoje, sabado preguiçoso no sétimo dia de março de 2009, diz tanta coisa que fiz questão de posta-la.
preferia o audio, mas me foge a capacidade de realizar tal feito. ever, aceito ajuda.
"moça das joaninhas, esta é pra você"...(Renato Russo)


Lígia
( Chico Buarque / Tom Jobim )

Eu nunca sonhei com você,
nunca fui ao cinema
Não gosto de samba,
não vou a Ipanema,
não gosto de chuva,
não gosto de sol

E quando eu lhe telefonei,
desliguei, foi engano,
o seu nome eu não sei
Esqueci no piano
as bobagens de amor
que eu iria dizer, não... Lígia, Lígia

Eu nunca quis tê-la ao meu lado
num fim de semana
Um chopp gelado em Copacabana,
andar pela praia até o Leblon

E quando eu me apaixonei,
não passou de ilusão,
seu nome rasguei
Fiz um samba canção
das mentiras de amor
que aprendi com você, é Lígia, Lígia

E quando você me envolver
nos seus braços serenos
eu vou me render
Mas seus olhos morenos
me metem mais medo
que um raio de sol, Lígia, Lígia

segunda-feira, 2 de março de 2009

Da saudade de Amanda

A meia luz do meio dia invade o quarto e pinta-o de ocro. Lá fora chove e a claridade cinza destes dias nublados cega e faz a alma sentir mais do que os olhos podem ver. Sentada, imersa no canto escuro do quarto, Amanda, semi-nua, fita a parede branca como quem assiste a projeção de sua vida, passada quadro a quadro, como um filme. Esqueceu de almoçar para alimentar-se de melancolia e lembranças. Está um dia tão triste. As horas estão imóveis. O tempo que é o presente está descansando no passado, nos braços de um grande amor que a poesia já levou.
Amanda está lacrimejando a chuva lá de fora.
Um ponteiro saltou e o que era passado agora é presente.
Nada mais vai acontecer se nada acontecer.
É bem provavel que fique assim, nublado, até o final da semana.
É bem provavel que até lá, além da solidão, nada aconteça.

Por causa desta saudade que não passa...

domingo, 1 de março de 2009

Diz que fui por aí ou Samba para a morena de dezembro

Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando um violão
Debaixo do braço
Em qualquer esquina eu paro
Em qualquer botequim eu entro
E se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber
Se volto diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim

Tenho um violão
Prá me acompanhar
Tenho muitos amigos
Eu sou popular
Tenho a madrugada
Como companheira
A saudade me dói
No meu peito me rói
Eu estou na cidade
Eu estou na favela
Eu estou por aí
Sempre pensando nela

sábado, 28 de fevereiro de 2009

As joaninhas mortas de Amanda

Amanda teria muitas coisas boas pra contar. O computador, bom ouvinte, lhe espera para escutar da viajem que fez. Da liberdade que sentiu enquanto caminhava sobre os passos que levavam ao horizonte, que lhe davam autonomia, que lhe enchiam de autoconfiança, confiança esta que há tempos está em dúvida. Dos dias em que passou fora de casa, fora de si, fora do mundo, mas dentro da vida. De mãos dadas com a felicidade, não se deixava abalar por mais de um cigarro. Quando os olhos tocavam o chão, logo o peito se inflava elevando a visão para as estrelas. Da saudade que sentia (porque é impossível sentir-se feliz realmente sem o tempero da saudade que fica de alguém), revelou imagens, descreveu poesia, guardou em luz e sombra para a volta. Para partilhar do lado de quem á espera o que foi ser a liberdade.
Mas Amanda não sabe como descrever tanta coisa boa. Ainda está atônita. Ainda tenta compreender o porquê. Seus olhos se perdem nos fatos e se refletem tristes no vazio da tela do computador.
Levanta, vai até a janela, inspira a tarde e nega o sol. Fecha a janela. No quarto escuro, apenas o brilho melancólico destas linhas.
- Como pode?
Fica difícil arranjar uma explicação para os fatos. Fica difícil descrever sobre felicidade.
Se perguntada sobre a hora de florir, a flor indagaria “Hora”? Basear-se em ponteiros que se atiram racionalmente? Razão?
Amanda abandona as teclas e nos dedos apóia um pouco de cigarro. Caminha pelo quarto para disseminar a taquicardia desolante que assola seu coração.
Como puderam aqueles olhos, lindos olhos, não perceberem a verdade que as palavras traduziam? Como pode deixar-se evitar um amor tão puro e tão escasso de lógicas, como deve ser o mais puro amor? Titubeia atirar-se em lagrimas. Não quer afogar-se. Não quer perder o brilho desta interrogação que ilumina a parede manchada através do brilho insólito do computador.
Seu coração não quer deixar seu corpo descansar.
Ela não quer esconder a tristeza de si. Quer tê-la para si. Quer participar de cada dor, cada angustia, cada poesia que por ventura nasça deste amor que se partiu. Outra vez é por amor que sofre Amanda, esquecida de si mesma, convencida de que sua confiança é mera formalidade social.
- Como foi que as coisas não deram certo?
Quando foi que este derradeiro final começou a se anunciar, que Amanda não foi capaz de perceber e se precaver?
- Teu coração amedronta-se da face clara do amor, por que esta face cega e faz sentir o mundo pelo toque dos lábios, pelo sussurrar da poesia, pelo ritmo ofegante da respiração. E não pela racionalidade dos olhos, pelo equilíbrio dos termos, pelos conceitos vazios de uma sociedade cheia de mágoas. Por que você não me escutou? Por que você se deixou levar pelo lado cômodo da palavra felicidade?
“A felicidade é uma mentira. E a mentira é a salvação.”
Foi tudo o que conseguiu escrever quando sentou-se novamente frente ao computador.
Inevitavelmente uma lagrima lhe escorre o canto direito da face e lhe ofusca a vista. Em virtuosismo compara sua realidade á de um livro dos dias, de um livro das flores. Não é o tempo que regra os acontecimentos, é a intensidade. Não te peço a vida, peço-te apenas a vivencia. O amor urge. O sol é um só, mas quem sabe são duas manhãs?
Por um instante regressa em si e reencontra, perdido no mais intimo de sua lembrança, um sorriso ingênuo e claro, aurora bucal. E quando uma outra lagrima lhe escorre o canto esquerdo da face e encontra-se delicadamente com um sorriso posto de esperança, os olhos brilham e tornam nítida a visão da alma.
Amanda esta sorrindo compulsivamente.
O computador atem-se a imitar-lhe o brilho. O vento lá fora agita a janela fechada, como um sopro de primavera que quer abrir o botão da flor.
Amanda abre a janela, respira a tarde e aceita o sol.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

De Partida


Ir, somente ir.
Há muito tempo era exatamente isto que eu mais queria.
Para trás, sonhos, amores, rotinas e bebidas.
A frente apenas a estrada e toda sua magia. A realidade.
Mochila sobre as costas, os planos na cabeça e nada mais. Criar expectativa ou tentar adivinhar o que pode acontecer é vão. Nada é certo quando se tem o horizonte como rumo. Deixar-se levar pelos passos que pisam e marcam uma trajetória é estabelecer harmonia entre o que há e o que poderá ser. Ir. Somente ir.
E hoje eu vou.
E parto agora...

"Se alguém numa curva me convidar, eu vou lá. Que andar é reconhecer, olhar..."
Primeiro Andar - Los Hermanos

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Insônia

Amanda saiu correndo pela chuva e chegou em casa á noite. Despiu-se, banhou-se, aqueceu-se e começou a sonhar. Entre cada sonho, um pedaço de céu se abria e de lá se viam estrelas, brilhantes estrelas que iluminavam o pouco que a janela aberta podia mostrar. Lá fora, chuva. Sonhava que podia. Que podia decidir e acreditar. Que as coisas mais impossiveis são as primeiras que se deve querer. E mais um pedaço de céu se abria e estrelava. Sabia que toda aquela água não passava de água, assim como a dor. Se vem e molha, a toalha seca. Como chorar a noite e iluminar-se pela aurora. Se as coisas eram realmente possiveis quem diria que eram? Quem seria capaz de transcorrer em regras manuais e gramaticais o que é de fato o que se é? Ou o que se quer? Quem pode afirmar, com a certeza absoluta da natureza fértil da primavera, que as regras para isto ou aquilo são estas ou aquelas? Quem? No céu, estrelas. Se nada pode ser provado por certo e há tantas filosofias vãs quanto á gotas no mar. Se todo o dia é um unico dia, como poderia haver a possibilidade (cômoda possibilidade), de se prever o que á porvir? Quem pode dizer á que horas uma flor vai acontecer? Assim como o amor... Estrelas.
Amanda pára e fita a parede branca. Amor. Se podia trascorrer sobre as inumeras respostas sobre perguntas do infinito, não poderia sequer rabiscar algo sobre o amor. O amor. Palavra que arrepia Amanda dos dedos á tela.
Em silencio a chuva cessa e o céu esconde suas estrelas, uma á uma, como botões que se fecham na camisa antes aberta. Aos poucos o cigarro é o único brilho do quarto. Aos poucos Amanda acorda e percebe que já são horas de dormir. A janela fecha o que resta da noite.
Lá fora começa a chover torrencialmente.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Brilho eterno de uma mente sem lembranças (fragmento final)

Ela sai porta a fora invadindo o corredor do edificio com passos pesados e firmes. Sua decisão é sumir. Ele corre atrás, chegando de encontro á ela no meio do corredor:
- Espere!
Ela está de costas, seguindo. Pára. Indaga:
- O que?
- Eu não sei. Apenas espere.
- O que?
- Eu não sei. Só quero que espere... um pouco.
As mãos dele suplicam agitadas. O semblante dela rende-se á emoção e se deixa cair em piedade. Olham-se por segundos que parecem anos. Anos que não sabem se viveram realmente.
Ela suspira e resolve uma resposta:
- Ok.
Ele se aproxima dela. Estão frente a frente.
- Mesmo?
- Eu não sou um conceito, sou só uma garota ferrada procurando por paz de espirito. Não sou perfeita.
- Não vejo nada que não goste em você.
- Mas verá.
- Mas agora eu não vejo.
- Mas verá. Você vai achar coisas. E eu vou ficar entediada e me sentir presa, pois é isso que acontece comigo.
Ele a olha no fundo dos olhos como quem tem certeza de que já a conhece muito mais do que ele, ou ela, são capazes de definir e dá de ombros com um leve sorriso apaixonado no rosto:
- Tudo bem.
Ela fica estática, admirada com a resposta e com a exatidão de que não esperava dele resposta diferente. Os olhos úmidos deixam-se escorrer e transbordam. Num misto de espanto e ousadia, reintera:
- Tudo bem.
Ele sorri confiante. Ela chora sorrindo compulsivamente enquanto repete:
- Tudo bem.
Simplesmente se entregam ao riso e inundam o corredor branco e vazio de felicidade pura e ingenua, como somente aqueles que descobriram o que realmente pretende o amor são capazes de ter. Os corpos já não mais se mantem separados e são unidos por um abraço longo e quente.
A última e persistente lembrança que se tem dos dois, é ve-los correndo lado a lado na beira da praia coberta de neve.
Estão felizes por aqueles repetitivos instantes.
E é só isso que importa.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Das últimas dores de Amanda

Amanda não sabe o que escrever.
Esta parada ante o computador mas não sabe o que escrever. Tem sua cerveja, sua fuga; seu cigarro, sua culpa; mas não sabe o que escrever. Ela simplesmente ama. Como se amar fosse simples. Olha pela janela, procura respostas. Não as encontra. Continua a olhar pela janela, isso a acalma. Não são os fatos, são os atos. Amanda questiona-se sobre o que ser. Ama em demasia e não sabe se conter. Quando deveria esperar pelo tempo, haje sobre ele e do tempo faz brinquedo. Olhando ela janela escura se pergunta: o que é o tempo? Quando tempo leva para poder dizer á alguém que o ama? Quanto tempo deve levar alguém até entregar-se por alguém que o faz rever os conceitos do infitino, os proverbios do bem dito, os requiens para sonhos esquisitos? Quando se tem a falta 24 horas ao dia por alguém, não é amor? O que é o amor? O que é o tempo? O que é isso que Amanda sente em dor e aperto no peito? O que Amanda quer é ser feliz, sem conceito ou pré-conceitos. Somente a vida morna e plena, como uma pluma que desliza pelo ar indo de encontro á mão que afaga o dorso. Amanda não tem todas as respostas, por isso não sabe o que escrever ante o computador branco de susto.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A dor de amor de Amanda

Amanda chegou em casa, abriu a porta e deu de cara com o quarto vazio. A meia luz do abajur era melancólico. A geladeira cheia não alimentava sua alma. Aprumou-se ante o espelho e ficou só.
Viu sua cara metade e nela decifrou sua esfinje. Devorou-se.
Ergueu seu copo e sorveu mais um gole de cerveja. Precisava manter-se embreagada. Nos medos as desculpas mais verdadeiras.
A janela aberta parou para ouvi-la: sim, era dificil entender.
Fitou a noite escura e fria, iluminou-a com um cigarro, nebulou-a com uma tragada e despiu-se da realidade.
Quem liga para as horas? O que Amanda não quer é ter o tempo. O que realmente quer é deixar-se para o tempo no tempo que for. Entregar-se á mais sublime aventura do ser e deixar-se ser apenar o que é. Para as convenções os coqueteis. Ela precisa é de espaço, esperança, espaçonave. Fugir, sumir, zunir para uma realizade bem longinqua, além da ponta dos dedos, dos textos no papel, das esperas madrigais.
Vai-se o ultimo gole do copo. Amanda só pensa nele. Por que?
Em breve estará lúcida e isso assusta...

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizivel emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que sou triste...

(Vinicius de Moraes - Montevidéu, 1960)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

~#~#~#~#~#~#~#~#~#~#~#~#~

E de repente eu percebo que todas estas horas que tricotei enquanto esperava por ti, viraram uma colcha de retalhos do tempo que me esconderam do sol...

Metáforas

Você que não entendeu a metáfora:
quando lhe disseram que a paixão
era tal qual a rosa do jardim,
era para que soubesses
que é preciso rega-la...

compêndio

o amor
é um enfarto do pleonasmo.
é a carta de um suicida.
é o sangue que escorre pelo espinho da rosa.

o amor
é usar da insonia seu fel.
é usar da espera o seu martirio.
é usar do peito a sua dor

o amor
é a pretensão de quem sofre.
é a improbabilidade de quem aposta.
é a resposta de quem não pergunta.

o amor
é o resultado do ócio.

Suicidio

- wreoiypnncuqy2bowb!!!!
atiraran-se desesperados os dedos sobre o teclado.
ah, já era tempo - coitados!

minhas possibilidades de poesia
estão se suicidando.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Rotina

Ele preparou tudo antes.
Arrumou o melhor local, a melhor bebida e não esqueceu das velas.
De moto, a encontrou na saida de seu trabalho.
Ela adimirou-o de susto. Não era isso que tinham combinado. Sairiam para tomar um café.
Ao vê-la boquiaberta estendeu-lhe o outro capacete e fez sinal para que o coloca-se.
- Coloque, vamos. Vamos sair da rotina.
Eles recem haviam se conhecido. Ou melhor, encontrado. Ela já sabia dele de antes, das passadas silenciosas no centro da cidade.
- Como assim? Ir aonde?
- Suba. Confie em mim, eu dirijo bem. Nem vamos correr. Apenas venha.
Dois motivos a faziam titubear. Pimeiro era que aquilo era totalemnte insano. Jamais haviam se relacionado antes. O fato dela saber da existencia dele não era motivo para que ela o conhecesse. E segundo por que o outro capacete era de uma grosseria, num estado desgastado e com sérias duvidas sobre sua segurança e sua estética. Afinal de contas, ela trabalhava em lugar "charmoso". Não poderia sair do trabalho com um capacete daqueles.
- Venha. Logo o sol se esconde a perderemos o brilho do dia, vamos.
- Mas a gente tinha combinado de ir tomar um café. Tu tem uma reunião em uma hora e meia.
- A reunião foi cancelada. Eu cancelei. Não é todos os dias que se vive, é cada dia. Coloque o capacete e suba. Você vai gostar.
Algo nos olhos dele lhe traziam confiança. Respirou e olhou o capacete. Voltou os olhos pra ele. Ele reinterou confiante.
- Sair da rotina. Vem.
Talvez se pudesse, ela diria "foda-se. por que não? é sempre esta mesma coisa, mesmo. Acho que já está na hora de fazer algo diferente. Eu mereço. E estes olhos...", mas não disse nada. Apenas sorriu de canto de boca e colocou o capacete sobre o cabelo liso cuidadosamente penteado.
Ele sorriu largamente e colocou a bolsa dela sobre o ombro. Ela agarrou-lhe a cintura e num abraço confiante afirmou que estava pronta para sair da rotina.
Rumaram então pela cidade.
A luz da tarde pintava cada prédio, cada esquina, cada copa de árvore de laranja poente. A liberdade zunia pelos seus ouvidos quando ele pegou uma estrada paralela e começou a deixar os blocos cinza-alaranjados para trás. Aos poucos o ar foi mudando de tom e tornava-se esverdeado. Subiam. E quanto mais subiam, mais a tarde azul estedia-se novamente para eles. Os olhos dela brilhavam tal qual o sol. Estava admiada. Escorria-lhe uma lagrima, não se sabe se de emoção ou causada pelo vento que entrava pela viseira semiaberta do capacete. A poeira da estrada de chão deixava um rastro de cometa. Um cometa que realizava sonhos.
No topo mais alto do morro, pegou uma estrada perpendicular e parou ante uma porteira. Um senhor de calça jeans surrada e chapeu de palha na cabeça correu para abrir-lhes o caminho. A moto seguiu por um pequeno trilho de estrada e foi estacionar no topo, ao lado de uma figueira, a frente do horizonte poente que se atirava até onde os olhos podiam enxergar e deixava a cidade e as suas pessoas sem tempo tão pequeneninhas, que até parece que o proprio tempo as tenha esquecido em algum lugar no passado. No pé da árvore uma toalha branca abaraçava a grama verde e sobre ela repousavam uma garrafa de água, uma garrafa de vinho tinto, dois copos, duas taças, uma tábua com queijos e um pequeno arranjo de flores com velas. Ao lado uma pequena coberta de lã e dois travesseiros.
Ela desceu da moto estasiada. Retirou lentamente o capacete enquanto observava iluminada a vista que se pintava tal qual um quadro de Monet. Ele abriu o vinho, serviu as duas taças e parou cumplice ao lado dela. Estendeu-lhe uma taça e disse sorrindo com o sorriso dela.
- Bebamos esta noite.
Ela segurou a taça com a mão esquerda e sorriu-lhe com os olhos úmidos, agora sim de emoção.
A tarde espreguiçou-se para eles e a noite embreagou seus sonhos.
Para eles já não havia mais rotina.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Dindi

de quanto em quanto tempo, oh dindi,
eu sofro por este motivo, sublime, dizem,
que me assola pelo silencio que vem de ti?

de quando em quando, acredite em mim,
eu passo á esperar por ti, oh dindi?

Há quem diga que sou louco
que não deveria amar-te tanto assim.

mas o que posso responder, se não escolho
sendo que a poesia que é tua
nasce como uma flor num jardim?

estou aqui por ti, para ti e de ti.
não sou um. sou eu.
eu que, mesmo sem eira,
vivo na beira para te ver feliz...