quarta-feira, 25 de junho de 2008

Encanamento Social

A mulher já estava cansada daquele pinga-pinga. O cano da pia da cozinha está pingando há um mês. Ligou para o encanador que chegou meia hora depois.
Toca a campanhinha.
- boa tarde.
- oi. Que bom que você chegou. Entra.
- com licença.
- claro, entra. Que frio, né?!
- muito.
Silencio.
- você veio de moto?
- sim.
- nossa, deve congelar as mãos neste vento.
- Pus as mãos no bolso.
- mas e a direção?
- com o motorista. Eu vim de moto táxi.
- ah, certo.
Silêncio.
- então?
- como?
- onde ta vazando?
- ah, sim. É na cozinha. Eu te mostro, vem.
- com licença.
- claro, me acompanha.
- cozinha bonita.
- obrigada. É sob medida. Veio do Rio de Janeiro.
- isso é mármore?
- é sim. Veio lá da serra. Caxias do Sul.
- tudo branquinho.
- pois, é. Dá um ar de limpinho.
- e quando tu faz fritura?
- tenho spray de Bom Ar.
- certo.
Silêncio
- é onde?
- ah, na pia. O cano. Ta pingando.
- deixa eu ver.
- me alcança as panelas.
- nossa. Inox?
- sim. Comprei em São Paulo.
- a senhora é viajada, hein?
- senhora não. Você.
- não, eu não. Já fui até Floripa, mas não passei.
- Não. Me chame de você.
- você.
Silêncio.
- ta rachado.
- o cano?
- deixar eu ver. É sim.
- é só trocar?
- acho que não.
- como assim?
- isso aqui parece pressão.
- pressão?
- é. A senhora mora no terceiro andar. A água que desce tem pressão. Tem alguma coisa que ta semi-bloqueando a saída dela e essa pressão ta exercendo força que rachou o cano.
- então é só trocar o cano?
- não. Tem que quebrar a parede.
-será?
- sem duvida. A senhora não pode ficar no meio termo. Tem que ter fazer alguma coisa.
- mas vai dar tanto trabalho.
- é, pois é. A mudança dá trabalho mesmo.
- e é exatamente isto que eu estou tentando evitar.
- mas não tem jeito. A senhora não poder fingir que o problema não existe.
- por que não? Eu já tenho tanto pra fazer no meu trabalho, na academia, nos afazeres do lar. E já tentei tanto mudar as coisas antes. Nunca deu em nada. Não sei se eu quero ter todo este trabalho pra mudar agora.
- a senhora tem todo direito de não querer encarar seus problemas...
- não. Eu quero encarar. E eu encaro. Todo dia venho aqui e passo um paninho na água que fica.
- isso não é encarar, é disfarçar. E seu problema pode afetar ao todo.
- então não é um problema meu. É do todo. Façamos uma reunião, um formulário, encaminhamentos e terceirizações. Se preciso, arranjemos culpados.
- não se arruma o todo sem arrumar-se o individual. Se a senhora fizer sua mudança, estará, também, mudando o todo.
- mas e o trabalho que vou ter? O problema do todo não é culpa minha.
- estamos falando na solução não no problema.
- e eu lá tenho condições de decidir a solução para o todo?
- a senhora esta se desvirtuando. Não precisa decidir pelo todo, decida-se por si e deixe que o todo participe desta decisão.
- e se for uma decisão errada?
- ficará mais fácil para corrigir. Se o problema não for no seu cano, vamos a vizinha de baixo ver se não é no dela.
- a vizinha? Mas eu nem a conheço.
- mais um motivo para mudar. A senhora pode estar iniciando uma grande causa.
- que causa? Ta louco? Desde quando arrumar um cano é uma grande causa?
- não é o objetivo em si, mas a coragem de tomar uma atitude.
Silêncio.
- obrigada. Se precisar de você eu ligo.
Desde então ela guarda as panelas de inox no armário suspenso da cozinha e agora colocou um balde embaixo do cano da pia. De hora em hora troca o balde. Usa pouco a torneira e faz doações para a cruz vermelha. A parede continua intacta. Mas ela passou a jogar truco nas quintas-feiras com a vizinha de baixo. E descobriu sorridente que a vizinha também tem um balde debaixo do cano da pia da cozinha.

2 comentários:

Éver disse...

Bah! Tem que cuidar o que se fala perto de ti, né ? Tudo vira texto exposto !

Totonho Lisboa disse...

o importante é ainda não citar nomes...